Blog entries   |  A imbecilidade real revelada pela realidade virtual

A imbecilidade real revelada pela realidade virtual

(Pedro Araújo) Hoje, prosseguir profissionalmente no ramo da informática, principalmente no desenvolvimento de software (no modelo fechado tradicional) pode se tornar uma opção um tanto quanto nebulosa quando o assunto é perspectivas para o futuro (ou até mesmo para o presente), tanto para a área em geral quanto para a pessoa do profissional de área. Eu, por exemplo, gosto muito de programar, desde criança sempre fui fascinado por computadores, adorava estudar matemática e ciências – coisas de nerd – mas eu me lembro que na escola eu geralmente me saia melhor em gramática e história do que nessas disciplinas. Parece que uma coisa não tem nada a ver com a outra, a exemplo, informática e gramática, mas no mundo da [maldita] inclusão e explosão digital em que vivemos, a violência empunhada contra essas duas áreas do conhecimento humano são expoentes da banalização integrada que toda a capacidade de pensar dada por Deus ao Homo sapiens vem sofrendo; e é por isso que o quadro atual se mostra quase que assombroso, muitas vezes gerando uma certa sensação de fracasso diante do resultado final de um trabalho desenvolvido, afinal, pra que fazer o melhor se ninguém dá muito importância pra isso, pra que oferecer um cardápio refinado e promover arte se o que o povo gosta mesmo é de “pão e circo”?

Parece dramático demais, mas, nada contra se divertir um pouco, só que é doloroso ver ferramentas desenvolvidas para o progresso da humanidade serem reduzidas a meros meios baratos de entretenimento fútil. A internet mostra isso todos os dias. Quando Tim Berners-Lee, sua equipe do CERN e seus demais colaboradores começaram há mais de 20 anos trabalhar no desenvolvimento do que hoje é a WWW é claro que ele não deve ter descartado a possibilidade da web ser também um canal de entretenimento, mas podemos crer que o principal objetivo era criar uma ferramenta produtiva que beneficiasse a humanidade – a informática em geral foi desenvolvida pra isso, bem como tantas outras áreas baseadas nas ciências exatas e humanas. Hoje é triste saber que a maioria dos usuários da internet (pelo menos os que conhecemos pessoalmente, ou não) faz dessa ferramenta algo improdutivo e maléfico. Lembra do que foi falado de história? Então, será que essa maioria sabe quem é Tim e o que é o CERN? Tudo bem, ninguém é obrigado a saber…

A banalização da “computação pessoal”.

Voltando ao nosso exemplo-chave, a combinação gramática e internet geralmente é fatal, isso é até dispensável de ser comentado; aquilo que a pessoa não teve interesse em aprender na escola piora com os modismos das redes sociais e comunicadores instantâneos. Sim, eu mesmo tenho uma conta no Orkut, no MSN, no Twitter, tenho um blog, vejo vídeos no YouTube, mas isso não dá o direito de “emburrecer” (desculpe-me pelo neologismo) e usá-los pra assassinar a língua portuguesa. Quase todos temos dúvidas em relação à concordância, escrita de algumas palavras, novo acordo ortográfico, mas o que vemos por aí é uma barbárie no que é trivial, até parece que é bonito parecer idiota!

Nesse ponto alguém pode dizer até que se trata de preconceito, mas, maldita inclusão digital, mesmo! Não é ser contra este tipo de projeto, mas é de ficar indignado ao vê-lo sendo jogado no lixo! A pessoa tem a oportunidade de adquirir um computador de modo mais acessível financeiramente, pra estudar, pesquisar, produzir (deve ser isso que o Governo prega em seu projeto de inclusão), mas essa pessoa acaba usando-o pra ser tornar mais excluído… Onde está a falha? Claro que nosso país tem suas dificuldades na educação, mas certamente os professores – que lutam todo dia justamente contra estas dificuldades para ajudar a construir um país melhor – nunca incentivaram seus alunos a usarem seus computadores “populares” ou “educacionais” pra ficarem mais “burros”!

Ao falar em “acessível financeiramente” isso pode levar a pensar só nas classes de menor poder aquisitivo, mas muita gente “de posses” compra computadores caros e potentes só pra se aparecer ou só pra jogar video-game – quem não gosta de coisa boa e cara? Claro, tampouco precisamos ser contra jogos eletrônicos (eu até jogo Super Mário), mas colocando tudo no mesmo “balaio”, por que subutilizar tanto as coisas assim, jogar dinheiro fora? Será que computador só serve pra Orkut, MSN, jogos, “conteúdo restrito” e correntes idiotas de e-mail!?

Por falar em e-mail idiota, recentemente eu recebi um spam com uma crítica “bem-humorada” ao Governo Federal, e resolvi perder tempo lendo. Enfim, não era nada a mais do que uma piada e eu não repassei pra ninguém. Eu não estou aqui defendendo um ou outro político, embora não posso esquecer que por um princípio cristão em que me firmo tenho que respeitar as autoridades sobre mim constituídas, mesmo que eu não concorde com elas e nem com seus eventuais erros (com os quais não sou obrigado e nem devo consentir), mas tenho quase certeza que esse foi o “maior” ato de “civilidade” que poderia partir de quem me enviou o e-mail – mandar coisa engraçada todo mundo sabe, mas quantos de nós usam a ferramenta chamada internet pra, ao invés de enviar mensagens que não contribuem com nada, acessar os portais da transparência dos poderes públicos de nossos municípios, estados e da União para, pelo menos, dar uma olhada nas declarações públicas de como e onde o dinheiro de nossos impostos está sendo investido?

Outro fenômeno interessante que acontece no mundo digital aponta pra fragilidade psicológica das pessoas, e é o campo fértil para aqueles que usam seus conhecimentos para o mal – pesquise sobre engenharia social. Quem nunca ouviu falar em vírus, sites falsos usados pro roubo senhas, lojas on-line que venderam, ficaram com o dinheiro do “trôxa” e não entregaram a mercadoria. Daí vão dizer: “um profissional da área sabe detectar uma ameaça, sabe onde clicar”… Em resposta, vamos analisar algumas coisas juntos. A maioria dos e-mails falsos, páginas e programas usados pra lesar o usuário vem com declarações de amor de pessoas que você nem conhece, lá do outro lado do mundo; outros falam de fotos suas em situações que você nunca viveu em lugares que você nunca esteve; outros oferecem promoções e vantagens que nem teu pai te daria de presente; outros usam a logo desfocada de algum banco com um texto cheio de erros pra pedir a tua senha do cartão; outros espalham os boatos mais absurdos; propostas pra ficar rico em pouco tempo e sem esforço, campanhas pra ajudar não sem quem de não sei onde nas quais a AOL (que já viveu andando à beira da falência) paga por cada e-mail repassado, vídeos do BBB, Viagra e pornografia… Movido pela ganância, pelo desejo de se sentir o mais esperto, invadir a privacidade dos outros, obter vantagens em “negócios da China”, pela curiosidade “que matou o gato”, ou talvez por carência afetiva ou porque a oferta de Viagra com desconto de 80% era o que você estava procurando, o usuário vai lá, clica e cai no golpe. Nunca foi tão fácil subestimar a inteligência humana, a internet é a ferramenta ideal pra explorar um lado das pessoas que nem Freud talvez explique, mas que vem à tona quando elas se veem diante de um monitor cheio de carinhas piscantes e formas coloridas com um teclado e um mouse na mão! um pouco mais de bom-senso levaria qualquer um a perceber que não é necessário ser um especialista pra ver que todo esse “papo furado” e envolvente é uma ameaça! Como é que podemos desejar um país melhor e cobrar isso das autoridades se passamos os dias dando atenção a tanta futilidade que lota as nossas caixas de correio eletrônico!?

Por isso da referência à imbecilidade no título deste artigo. O dicionário define como imbecil a pessoa que se sujeita facilmente a sugestões que podem representar risco a ela mesmo e/ou aos outros. A psicologia vai além e diz que se o imbecil for “empurrado” para o mal ele acabará o fazendo pois não tem base moral que o impeça de ir em frente. Ou seja, a imbecilidade leva a pessoa ao desequilíbrio, e alguém desequilibrado nunca consegue ver mais que um lado da moeda. É por isso que a informática às vezes cansa quem vive dela, e por ela ser uma área de grande evidência nos nossos dias, recebendo a função de integrar quase todos os contextos de nossas vidas, esse panorama de realidade virtual que ela proporciona, no qual as pessoas mergulham de olhos fechados, faz com que ela talvez seja, num ponto de vista pessoal, uma das áreas em que as fraquezas humanas mais se destaquem (e se integrem), afinal, a tendência é informatizar tudo mesmo – nesse caso a convivência com esse desequilíbrio humano torna-se inevitável, o que exige preparo pra lidar com ele, digitalmente.

Pode até parecer algo como chorar as próprias mágoas pra si mesmo, mas é doloroso ver esse ramo ser tão desrespeitado e ao mesmo tempo ser usado pra desrespeitar o ramo e a vida dos outros – doloroso porque, mesmo que o relacionamento com o computador seja como o “gargalo” disso tudo, o problema não está só com ele, mas é o reflexo de estilos de vida e maneiras de pensar. O computador é seu, você pagou, use-o como quiser. Mas o ideal é que a prioridade seja usá-lo em benefício de sua edificação pessoal. Por mais que existam coisas fantásticas na internet, como por exemplo a Wikipedia e a comunidade GNU/Linux (preferências pessoais minhas), que de maneira séria promovem uma construção colaborativa global do conhecimento compartilhado (é redundante mesmo), ou como tantas outras ferramentas que disseminam a informação, promovem civilidade, se empenham na preservação do meio-ambiente, ela também tem suas armadilhas. Nunca deixe de ler bons livros, estudar, fazer amizade com pessoas reais, investir em sua vida espiritual, praticar esportes… Isso vai fazer com que você não se torne um imbecil digital, pois talvez os maiores problemas no mundo digital não são criados por falta de conhecimento técnico, a “vitrine” virtual apenas expõe o que nossa sociedade realmente é!

A computação corporativa em risco

Até aqui abordamos algo que milhares de artigos, tanto na web quanto nos meios clássicos como jornais e revistas, já abordaram, tantas vezes, com variados enfoques, mas estes argumentos servem de base para entrarmos num plano um pouco mais delicado, pois essa situação de esquecimento dos valores da informática (e até do conhecimento humano) não se detém nos domínios da “computação pessoal”, mas também está arraigada no meio corporativo. Nesse meio o pensamento deveria ser, de maneira simples, padronização e organização para a consequente otimização dos processos, afinal aqui as coisas são mais sérias, exigem mais controle, os dados em questão são muito mais importantes que um perfil numa rede social, mas, como corporações são feitas de pessoas, as mesmas falhas do “pessoal” se infiltram na “cultura” da maioria dessas instituições – e eu vou dar só uma “pincelada” pois este assunto pode até ser perigoso pra mim, mas eu prefiro não ser parcial.

Uma das dificuldades em se obter sucesso na gestão da informação em boa parte das corporações não é culpa simplesmente do processo de adaptação ao, no caso, novo sistema informatizado de gerenciamento em si, mas, analisando de forma bem direta e crítica, muitas instituições não procuram um modo de tornar seus processos mais padronizados, otimizados e produtivos, não tratam sua organização interna com o zelo que deveria mas querem apenas uma coisa que, como diria um colega de profissão, “informatize sua bagunça”. Dessa forma qualquer tentativa no sentido correrá sempre o risco de fracassar, pois, por mais que o vilão da história sempre acabe sendo o sistema computacional, o problema é muito mais profundo, algo que a consultoria de um bom profissional da administração poderia resolver (mas isso também nem sempre é tido com importante). Diante disso o jeito é “flexibilizar” os padrões antes propostos, só que essa flexibilização também não é feita de modo a se manter o mínimo de padrões necessários para garantir a estabilidade desses processos, o que vai se refletir nos resultados destes. Entenda que isso não significa que “personalizações” não devem ser feitas – o problema está no fato de que estas “personalizações” nem sempre são bem projetadas e muitas vezes não passam de meros “fetiches” que ao longo do tempo comprometem não só o sistema de gestão, mas também tornam o processo de administração dos dados em questão em algo muito confuso ou até sem lógica. Em suma, seria aquilo que a Física já diz a tempos e que chamamos de entropia, que é a tendência dos sistemas ao desgaste, com consequente relaxamento dos padrões e aumento da aleatoriedade. Parece que os gestores têm dificuldades de enxergar isso, esperando da ferramenta algo além de sua função, negligenciando o papel da pessoa no processo de controle lógico desta ferramenta esperando que ela funcione como um bola de cristal, e do lado dos “fornecedores” falta capacidade de lidar com estas situações, capacidade pra oferecer uma solução e não um paliativo.

Já dizia o velho ditado que “de médico e louco todo mundo tem um pouco”, mas ele também se encaixaria hoje perfeitamente com a computação. Como já dito, por ela estar em foco e ser uma ferramenta de integração (o que é muito bom mesmo, afinal existe pra isso) ela acaba sofrendo com o fato de todo mundo achar que pode “meter a mão”, ou que o seu sobrinho faz isso fácil-fácil com a “mão nas costas”… O profissional e a própria área são desvalorizados nesta cultura e o resultado é que os bons profissionais, empresas e produtos são deixados de lado e os maus ganham evidência. E não só o pessoal da área sofre com isso, mas todos que usam a informática de alguma forma também. Essa falta de consideração faz com que empresas e pessoas sejam vítimas de quem se infiltra na área se dizendo profissional de TI, mas age sem nenhuma ética, sem se preocupar com a qualidade dos produtos e serviços oferecidos. São estas pessoas que por exemplo impulsionam a pirataria de software, pois sempre oferecem as soluções mágicas e mais fáceis, que todos sabem muito bem como são obtidas na maioria das vezes. Entrando nisso, quem apoia os projetos do mundo GNU/Linux e do software livre (como eu) em geral acaba sofrendo preconceito, chamado de fanático, etc… Infelizmente enquanto vivermos em um mundo em que o dinheiro (e ganho de forma mais fácil) for mais importante do que a qualidade isso dificilmente vai mudar! E o que o administrador de uma empresa que não é obrigado a entender de informática tem a ver com isso? Bem, muitas vezes ele cai na conversa de maus profissionais, se torna parceiro da pirataria e coloca os dados de sua empresa em risco, prova disso são os não raros servidores com senhas “123456″ que eu vivo encontrando por aí (você entregaria sua senha do banco ou a chave de sua empresa ou casa assim tão fácil?), redes, permissões de acesso, políticas de privacidade e sistemas mal-projetados e desperdício de material e dinheiro – pra não entrar em dados técnicos que levarão e mostrar fatalmente porque o GNU/Linux deveria ser mais levado em consideração e usado principalmente no meio corporativo.

E não são só as empresas não ligadas a informática que são enganadas neste processo. Muitas empresas do ramo da informática também se deixam enganar. É controverso mas é verdade. Na questão delicada da pirataria, a maioria das empresas que vivem da comercialização de software infelizmente ainda usa ferramentas piratas em seu processo de produção, ou seja, colaboram com um mal que pode se voltar contra elas mesmas. Outro fato é que essa maioria também não se preocupa em se manter atualizada, não investe em novas tecnologias de maneira consciente e coloca os fatores quantitativos acima dos fatores qualitativos. E não é só uma questão técnica, mas se inclina pro lado administrativo, uma vez em que as decisões nestes locais são tomadas na maior parte dos casos desconsiderando os requisitos de planejamento inerentes a suas ações, ou em outras palavras, quem toma as decisões não tem conhecimento técnico, não só técnico do ponto de vista de “bits e bytes” mas sim essencialmente contextualizado e coerente com o resultado final daquilo que fazem, principalmente voltando-se pro objetivo de atender melhor seus clientes (aquilo que foi falado sobre capacidade pra oferecer a melhor solução e não uma “gambiarra” só pra “fazer média”).

Em resumo, o que falta mesmo é um pouco mais de profissionalismo da parte do pessoal e área e um pouco mais de consciência dos consumidores. Se fossemos argumentar detalhadamente e debater todas as questões envolvidas gastaríamos muito mais palavras do que já gastamos, mas eu tenho uma espécie de crônica que sintetiza tudo isso (é uma história pessoal real)…

Para que eu obtivesse minha CNH (Carteira Nacional de Habilitação), passei por aulas e testes teóricos e práticos de carro e moto (fiz inclusive um teste que atestou minhas condições psicológicas e outro pras aptidões físicas como a visão). Preparado e aprovado em todos eles depois de um tempo eu recebi minha habilitação categoria AB. Dias depois eu comprei minha moto. Hoje trafego com ela pelas ruas seguindo as leis, normas e técnicas que aprendi, e, três anos nunca fui multado ou me envolvi em acidentes (tirando os tombinhos bestas no cascalho e na areia e a vez que caí sozinho com a moto parada e desligada no posto de gasolina quando a barra da minha calça enroscou no pedal da troca de marchas). O pessoal da loja disse que a cada 1.00 Km precisaria fazer a troca de óleo e a cada 4.000 as revisões pra manter o bom funcionamento dela, o que tenho feito à risca. Dos raros e eventuais reparos que a moto precisou eu levei ela à concessionária pros mecânicos de lá, que entendem do assunto, fazerem o serviço. Minha moto nunca deu problemas maiores e embora ela chegue a 140 Km/h eu sempre trafego no limite de velocidade permitido, não ando na contra-mão, não faço acrobacias (deixo isso pro Joaninha, que batalhou muito pra ser campeão competindo e treinando em lugares e com equipamentos seguros e apropriados) e sei das minhas limitações, entre elas o fato de que não posso esquecer que por ter uma carteira AB só posso dirigir moto e carro, nem pensar em querer pegar uma carreta, isso deixo pra quem é habilitado e capacitado… E por aí vai… Bem, se você olhar os detalhes disso verá uma coisa: existem padrões e regras (inclusive de segurança) pra que as coisas funcionem bem – e quando não funciona foi porque a imbecilidade se superou. Porque na informática isso tem que ser diferente!?